Nós

17.3.19

Imagem por Free-Photos, sob licença Creative Commons.


Você caminhava na minha direção como em um daqueles filmes românticos toscos, não fazia a menor ideia de quem havia colocado aquele efeito de câmera lenta, mas ali estava eu, presa em seus olhos. Aquele brilho que não pude explicar.

Talvez fosse eu, tonta, me apaixonando outra vez. Aquele típico olhar compartilhado entre duas pessoas recém-apaixonadas. Coração pulsando tão forte que salta do peito, a adrenalina correndo pelas veias, bochechas naturalmente coradas a cada novo toque descoberto.

Primeiro abraço. Primeiro beijo. Primeiro dar de mãos.

E então a cena continua, já não somos aquelas pessoas que tinham medo de entrar em um relacionamento ou que simplesmente fugiam quando essa oportunidade aparecia. Já somos duas pessoas que mergulharam de cabeça nessa nova experiência e que não fazem ideia de como conseguem estar tão bem o tempo todo enquanto outros relacionamentos só se despedaçam com o vento.

Era estranho como tudo sempre pareceu ser tão perfeito entre nós dois, até que me dei conta de que não era, nunca foi. Porque para mim a perfeição era o seu jeito bobo de sempre estar correndo contra o tempo, como você deixava a casa parcialmente arrumada, o seu cabelo bagunçado ao acordar de manhã, a maneira que você me encarava com aquele brilho no olhar que só parecia aumentar com o tempo e o nosso café da manhã que deixava migalhas pela cama.

Agora era eu que caminhava em sua direção, tinha as chaves da sua casa, conhecia o porteiro e até já me havia acostumado a fazer compras no mercado da esquina. A esse ponto muitos diziam que o amor acaba, as famosas frases de “espera até tantos meses para você ver como a coisa muda”, e mudou mesmo, o amor que a gente tinha aumentou inexplicavelmente. Eu sabia muito mais sobre você e você sabia muito mais sobre mim, as minhas dores e outros amores. Completávamos a frase ou sabíamos o que o outro iria dizer, mas não era sempre assim, já que nós, com a criatividade mutante que tínhamos, inventávamos respostas cada vez mais loucas. Uma surpresa atrás da outra. Nós nos renovávamos constantemente.

Seus braços me envolviam em uma dança enquanto a única coisa que nos iluminava eram as luzes da noite. Carros apressados com pais e mães de família, os diferentes tons de lâmpadas em cada apartamento que reconfortavam as diferentes vidas ali existentes. E eu só conseguia pensar em você, aquele olhar que me lançava enquanto me girava pela sala, uma e outra vez, o sorriso no rosto enquanto me envolvia em seus braços quentes, sentindo nossos corações baterem mais forte.

Como esquecer das gargalhadas enquanto pisávamos um no pé do outro e dos beijos roubados em uma coreografia completamente descoordenada?

Logo me vejo deitada na cama com o telefone no ouvido, sua voz do outro lado da linha matando a saudade de estar perto de você e sentir o calor do seu corpo mais uma vez. “A distância rompe relacionamentos” era o que todos diziam, mas isso só nos fez mais fortes. Aprendemos que as conversas e a sinceridade eram elementos fundamentais. Assim tivemos nossas conversas mais profundas, discussões casuais e até mesmo nossa primeira briga que se resolveu em instantes, porque sempre fomos muito abertos um com o outro. E pela câmera do celular, eu ainda podia ver aquele brilho em seus olhos, desejando estar perto para sentir o roçar da sua barba rala em meu rosto.  

As cores das folhas das árvores já mudaram e agora você dorme ao meu lado dizendo coisas engraçadas sem o menor sentido, respondo esperando algo nada coerente e rio das palavras que saem da sua boca, mas logo me calo com a maneira em que você, mesmo sonâmbulo, me abraça e beija minha testa, meu coração dá saltos enquanto você, de olhos fechados, sussurra que me ama. É tão estranho pensar que, até mesmo dormindo, você ainda é capaz de demonstrar tudo isso apesar dos leves roncos.

E aqui estamos outra vez, deitados na cama em silêncio, contendo as lágrimas que insistem em cair ao pensar que temos que separar-nos outra vez, sempre sabendo que falta menos para que possamos estar finalmente juntos. Então olho em seus olhos enquanto acaricio sua barba rala, tentando memorizar cada feição do seu rosto como se eu dependesse disso para sobreviver a tanta saudade, aquele brilho que sempre esteve ali se intensifica e por alguns segundos me perco na imensidão que você me transmite por detrás daquele tom castanho.

Ao ver esse brilho presente em seus olhos, eu sei que estou finalmente em casa.

  • Share:

Posts Relacionados

0 comentários