A música que me move

28.11.19

Imagem por ErikDevlies, sob licença Creative Commons.

Do fundo da alma escuto algo, um som inaudível para o demais, quase como uma corrente elétrica misturada em ondas sonoras capaz de mover meus braços e pernas.

Ali eu era pura. Somente a essência do meu corpo que se movia livremente sobre o piso de madeira, saltava sendo segurada pela atmosfera. Era alva, cálida e ao mesmo tempo inexpressiva de rosto, ao contrário do meu corpo que se abria e fechava em grandes explosões e piruetas.

Desço do palco eletrificada, com uma ânsia de viver, o sentimento de estar completa que sinto em meu estômago. Subo as escadas do camarim, um pé atrás do outro, os braços que balançam em um ritmo constante e escuto um sussurro que eriça a minha pele.

O espelho estático se encontra com o meu movimento. Parada e ao mesmo tempo com um turbilhão de movimentos dentro de mim. Sangue pelas veias, coração a mil, células que dançavam uma com as outras em uma troca energética constante. Esse era o meu reflexo, o que os outros podiam ver, mas não sentir.

Mexo um braço e logo o outro, o espelho me segue. Se o toco, quase posso sentir que o atravesso, mas para onde? Para o outro lado do camarim, em uma vida paralela que todos somos obrigados a viver.

Os ritmos aqui são mais duros. Sair por aquela porta implicava movimentos bruscos, brutos e fortes, a coluna completamente ereta. 

Uma música poluída pelos sons dos outros.

Cotovelada atrás de cotovelada, as pernas rápidas sobre o asfalto da cidade, encontros de corpos quentes a ponto de explodir. O ombro dele contra o meu, um pé que pisa o outro, braços que se tocam em um ritmo constante.

Desculpa. “Cença”.

Então passo por uma segunda porta, ali devo ser ágil e flexível. Movimentos rápidos e repetitivos. O cheiro do café chega a impregnar a nossa pele.

Meneios de cabeça, o som do roçar de mãos ao cumprimentar, um puxando o outro com braços esticados, um vaivém constante onde, talvez, alguns queiram subir em você, escalar cada articulação do seu corpo para chegar mais alto.

O som, cada vez mais poluído pelos outros, se torna apenas um fio de voz, deixando minhas pálpebras cada vez mais pesadas, a luta por manter os olhos abertos implicava que meus dedos fossem fortes o suficiente para segurar o meu rosto enquanto minhas pernas flutuavam em um estado de eterno estancamento.

Então escuto o sinal, aquele que me liberta e corro novamente para o espelho, saltando e esquivando o som mortífero dos outros. Jogo meu corpo no palco, esperando que a vida volte ao meu corpo e gradativamente eu escuto: o respirar, meu sangue correndo pelas veias e o palpitar do meu coração.

Aos poucos o meu corpo se levanta e a eletricidade volta, movendo meus braços e pernas de maneira delicada, repetindo uma vez mais esta odisseia musical dentro de mim.



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