José, o verdulero - Reflexões de quarentena 1.

29.8.20

 

Imagem por bildgebende_Momente sob licença Creative Commons.

Antes do mundo inteiro colapsar por conta do Corona Vírus e antes mesmo de eu ter terminado com o meu ex (fato que parece ter acontecido há décadas atrás), eu vivia em um apartamento em Belgrano, logo à frente de casa se encontrava uma sorveteria e, atravessando a rua, havia um “chino” (nome que os argentinos dão aos mercadinhos populares de bairro cujos donos são de descendência chinesa/chineses).


Nesse mesmo mercado, em um cantinho à esquerda, logo na entrada e atrás de três geladeiras com refrigerantes e bebidas, estava a verdulería do José.


Ele era um senhor de entre quarenta e tantos ou cinquenta anos aproximadamente, pele escura com um tom avermelhado, expressões faciais bem marcadas e rosto angular. Costumava falar com uma postura mais encurvada, mas se movia de forma ágil, como se tivesse uns vinte anos de idade e, assim como eu, era um estrangeiro na terra dos hermanos.


Lembro-me da primeira vez que o vi. Nunca gostei muito de ir às verdulerías daqui, eles não deixavam você escolher ou sequer tocar nas frutas, também costumavam estar sempre de mau humor. Por esses motivos, estava com um pé atrás, mas já havia acabado de comprar no mercadinho e não iria a outro lugar só para comprar uma fruta. O que custava contornar as geladeiras e ir falar com ele?


Me aproximei cautelosa e o cumprimentei com um “buenas tardes, ¿cómo va?”, ele me respondeu sorridente e logo tomei confiança, era muito simpático, me mostrava as frutas e verduras, me deixava tocá-las. Voltei mais algumas vezes e resolvi sempre ir ali, ele havia conseguido uma cliente fiel.


E como esquecer do “buenas tardes, señorita” ou a maneira como ele juntava as mãos e movia a cabeça para o lado quando dizia “señorita”?


Não demorou muito para ele fazer a pergunta que todos faziam em algum momento, quando falavam comigo por muito tempo:


— Desculpa, mas de onde a senhorita é? — Abri um sorriso e não hesitei duas vezes em responder.


— Eu sou brasileira.


— Ah, claro! Agora tudo faz sentido. — Eu, curiosa, perguntei o motivo. — É que a senhorita fala tão suave, tranquila e está sempre sorridente, diferente das argentinas.


Então conversamos sobre diferenças culturais, descobri que ele era peruano e que havia vindo com parte da família para a Argentina. Comentei com ele sobre as feiras do Brasil, sobre as frutas, o clima, as pessoas... Eram conversas simples sobre a vida, que alegravam o dia com aquele toque de leveza e simplicidade.


Quando eu ficava muito tempo sem ir, ele até brincava: “hoje vai chover” ou dizia “a senhorita precisa comer mais frutas/verduras, faz bem para a saúde”.


Um dia ele me comentou algo que o meu ex já havia comentado, não exatamente com as mesmas palavras. Ele disse que se notava que eu era uma pessoa boa, que tinha uma alma pura e que era possível perceber só pela maneira que eu falava. Fiquei curiosa e entramos em uma conversa sobre pessoas julgadoras, preconceituosa e também sobre status.


Ele contou que quando era pequeno, era o melhor aluno da sala, cresceu e, por questões da vida, não pôde fazer faculdade, enquanto um dos seus amigos, que era o pior da sala, era advogado e quando se encontravam, o tal advogado perguntava: “o que aconteceu com você?”; e ele se sentia um pouco sentido, mas tinha orgulho de ter um trabalho digno.


Lembro que falei para ele que ser mais inteligente na escola não define o nosso futuro e cada um tem uma trajetória de vida diferente, oportunidades diferentes. O amigo dele não teve que deixar os estudos para ajudar a família a ter o que comer, isso não significa que o José seja pior por não ter um diploma pendurado na parede.


Falei para ele que todos somos seres humanos iguais, às vezes a vida não proporciona o que queríamos, mas temos que nos orgulhar do que temos e principalmente procurar ser feliz, já que a vida passa muito rápido.


Parando para pensar nas nossas conversas, posso ver o quanto a sua postura mudou ao falar comigo, antes ele se apresentava mais encurvado, como um gesto de inferioridade, agora ele já tinha a postura mais confiante e firme. Conversávamos sobre coisas da vida, trocávamos dicas de como ver qual fruta/verdura estava melhor, ele me contava sobre a sua rotina de acordar cedo e escolher as melhores frutas e verduras para trazer ao “chino”, me cumprimentava sempre com um sorriso no rosto.


Até chegou a dizer que, sempre que falava comigo, o seu dia se iluminava, mal sabia ele que eu também voltava para casa renovada depois de um dia de trabalho, a conversa era tão leve, tão tranquila, sem pretensões ou interesses, era algo tão inocente.  Era muito interessante ver a visão de uma pessoa tão vivida como a dele. E é engraçado como, muitas vezes, a gente passa batido pelas pessoas sem imaginar a bagagem de cada um, até hoje não entendo como muitas das clientes dele nem sequer o cumprimentavam ou eram grosseiras, como se ele não entendesse nada da vida ou fosse um escravo delas ("me dá isso, aquilo, e aquele outro, pronto, tchau").


O meu ex brincava dizendo que tinha que tomar cuidado se não o José me roubaria dele, eu só ria quando ele falava isso. Lembro que quando terminamos e eu tive que voltar a viver na residência universitária, uma das coisas que mais sentiria falta era das conversas filosóficas com o José, mas a vida às vezes tem dessas coisas, as pessoas vão e vêm, algumas deixam marcas e outras não. Uma vez ele até havia perguntado se o meu ex me tratava bem, eu não havia entendido aquela pergunta, mas talvez ele, com toda a sensibilidade e empatia que tinha, já sabia o que estava por vir.


As últimas vezes que fui visitar a minha gata, pensei em passar ali, cumprimenta-lo e conversar sobre a vida, mas algo dentro de mim me impediu, talvez quisesse que ele se lembrasse de mim sempre sorridente e não quebrada como estava.


E ontem, abrindo uma fatura para pagar, vi o meu endereço antigo. Só esse fato me transportou para aquela rotina de uma outra vida. A minha gata me cumprimentando ao chegar em casa, a rua tranquila, a praça cheia de cachorros, a lojinha do lado de casa onde eu comprava frios, a sorveteria que tinha promoção toda terça-feira e o “chino”. Fui passando mentalmente por cada lugar, por cada pessoa e me perguntei: como será que está o José com essa pandemia? Será que a sua família está bem? O seu sobrinho, o cachorro... Espero que ele tenha tido condições de ficar em casa, afinal, ele pode estar no grupo de risco. Será que ele está conseguindo contornar a inflação que aumenta todo dia?


É curioso como um simples dado pode trazer tantas memórias e como a pandemia parece separar duas vidas diferentes. No final do dia, espero que todos estejam bem e que algum dia volte a escutar: “buenas tardes, señorita” e filosofar sobre a vida.  


Vem conhecer a lista dos blogs participantes.

Adriel Christian – Não me Venha Com Desculpa 

Luly Lage - Sweet Luly 

Fernanda Rodrigues - Algumas observações 

Fernanda N – Confabulando 

Carol justo - Justo eu

Camila Tuan - Camila por Aí 

Ane Venâncio - Profano Feminino 

Aline Codonho - Inventando assunto 

Thami Sgalbieiro – Like Paradise 

Mariana Velloso – Tô Pronta!

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7 comentários

  1. Sem dúvidas este é um belo retrato sobre empatia e nos faz ter esperança que apesar do caos que estamos vivendo ainda há pessoas que podem fazer a diferença, um dia de cada vez. Ao ler seu texto consegui imaginar exatamente cada encontro, a troca de palavras e a amizade que surgiu sem querer, ao fim terminei com o coração quentinho.

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  2. Ayu, já fiquei com vontade de ir pra Buenos Aires, conhecer mais Belgrano e, claro, o José.
    Espero que ele esteja bem e que você possa voltar lá para contar pra ele como o seu ex é um boludo!

    Essa pandemia há de passar!
    Um beijo,
    Fernanda Rodrigues | contato@algumasobservacoes.com
    Algumas Observações
    Projeto Escrita Criativa

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    1. Ai, Fer!
      Você me faz rir shaushauhsa Já imagino "então José, meu ex foi um boludo, mas vida que segue".

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  3. Ayumi,
    que bonito relato sobre seu José, espero que ele esteja bem. E entendo essa coisa de como as vezes a gente cria um laço com alguém que mal conhecemos, mas com quem as conversas sempre nos deixam bem.

    E sim, você aparenta ser uma pessoa boa, mesmo pra tem que te conhece somente pelas internet. <3

    Um beijo,
    Line

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    1. Brigada Line ♥
      Espero que todos possamos sair bem dessa pandemia.

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  4. Que texto acalentador. Existem pessoas que merecem ser colocadas em um potinho.

    Bom fim de semana!

    OBS.: O JOVEM JORNALISTA está de volta com novos posts. Não deixe de conferir!

    Jovem Jornalista
    Instagram

    Até mais, Emerson Garcia

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    1. Siiiim!
      Gente boa por aí que só merece paz e felicidade ♥

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