O dia de amanhã

13.9.20

 


Abri os olhos e encarei aquele teto branco tão sem cor, minhas mãos contornaram as ondulações do colchão sentindo cada curva e os pequenos sulcos da costura. Eu continuei ali, imóvel por algum tempo, pensando em tudo aquilo que havia acontecido.

 

Minha mente foi invadida de memórias que fizeram o meu corpo levantar, quase como se tivessem vida própria e me empurrassem para frente. “Vamos, vai ficar tudo bem”, pareciam repetir uma e outra vez, quase gritando um: “levanta a bunda dessa cama”.

 

Os meus pés tocaram o nada ou, pelo menos, eu me sentia assim. Um vidro transparente mostrava o céu sob os meus pés, mas eu ainda estava no meu quarto. Caminhei até a porta, mas o vidro, que antes se mostrava tão firme, desapareceu.

 

Caí na imensidão, meu corpo pesado ganhava velocidade enquanto meus braços e cabelos resistiam ao vento que cobria cada aresta do meu ser. Algo dentro de mim revirara no estômago, respiração acelerada quase por um fio, mas meu semblante estava calmo e tranquilo.

 

Finalmente cheguei ao fim desse abismo. Estava sobre a avenida, entre os carros e o barulho da cidade, o caos a minha volta refletia o caos dentro de mim.


Abri os braços de olhos fechados, agarrei o ar como se pudesse agarrar a minha própria vida, juntei as mãos contra o peito e o silêncio se fez presente.

 

Eu estava novamente em casa, parada na sala, encarando os prédios pela janela, meu corpo coberto e desnudo ao mesmo tempo. Relutei em tocar o vidro com medo que tudo se desvanecesse outra vez.

 

O mundo lá fora não era como o daqui de dentro. Tudo estava tão confuso e a vida já não era mais a mesma. Caminhei pela casa inteira procurando um sentido, abri a porta relutando em colocar os pés para fora, não era uma opção, dentro de casa era seguro e já havia esquecido como era estar do outro lado.

 

Fechei a porta com o coração a saltar pela boca, voltei a deitar e encarei novamente o teto tão monótono, esperando que o dia de amanhã chegue com um sopro de esperança entre risos, abraços e uma conversa no fim da tarde.



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